terça-feira, 11 de outubro de 2011


A doença corresponde a uma especificidade; algo que está perturbado relativamente à norma. Como definir uma norma dentro de uma população tão diversificada? Se todos os seres humanos são diferentes e a doença corresponde a uma especificidade, cada indivíduo constitui uma doença.
Cada ser humano, só não é uma doença, uma vez que alguém com um pendor para a redução, lembrou-se de rotular grupos de pessoas com características mais ou menos semelhantes, tendo em conta um domínio específico. Os outros que ninguém se lembrou de inserir em alguma categoria, foram designados por “normais”.
Numa hipotética lista, em que cada humano corresponde a uma doença, o n.º100329931029, seria de um dos nossos antepassados e reuniria características que fariam desse individuo, um corpo excepcional, de entre uma série infindável de números. Uma lista de números actualizada a cada milésimo de segundo, para atribuir um número aos novos seres que se formam e para suprimir da lista um número de um corpo que ao acordar não abriu mais os olhos e deixou-se dormir num sono profundo.
Cada ser que nasce, é uma nova doença. Cada ser que parte constitui uma doença erradicada. Há doenças que pelo seu engenho mereciam um nome, em detrimento de um número. Um desses exemplos é o corpo excepcional de Frida Kahlo.
Frida representa um corpo com dor que é aliviado, numa fase inicial, na fusão das cores do pincel com o colete de gesso e mais tarde no diálogo das cores e formas com as telas. Uma pequena dor que vai sendo tranquilizada, seja nos seus relacionamentos com o seu marido Diogo Riviera ou com as mulheres que apareceram na vida de Frida. Mesmo num amor doentio mantido com o seu esposo, foi possível para a pintora encontrar um alívio. Riviera, na história de Frida, para além de alívio, também aparece como a causa de pequenas dores. Doentio não é procurar o alívio num amor assim; patológico é não tentar ver as dores do corpo socorridas, um corpo que é indissociável da mente.
A pintora mexicana aparece como um exemplo de superação das suas limitações físicas. O acidente de que Frida foi vítima num autocarro, não só veio acentuar as dificuldades que Frida já possuía, mas também revelar uma força interior desmedida.
Esta é a história de um corpo excepcional, não pelas limitações físicas, mas pela grandeza que esta mulher mostrou e que se tornou visível na sua obra – um interior muito rico e que não corresponde a uma visão surrealista, dado que segundo Frida os seus quadros retratavam a sua própria realidade. Uma história que supera qualquer discussão sobre o normal e o patológico.
Se alguém se desse ao trabalho de criar um inventário com a designação de todas as doenças, que na verdade, corresponderiam ao número dos homens que já pisaram a terra, desconfio que o primeiro critério para diagnosticar a doença correspondente a Frida Kahlo fosse Viva la vida!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

morte.


Ophelia, personagem criada por William Shakespeare, morreu acidentalmente, enquanto se agarrava a um galho de árvore para aí colocar umas coroas de flores, tendo o mesmo se partido e Ophelia caído ao rio, morrendo. Enquanto Ophelia era arrastada pelas águas do rio, a mesma cantava algumas músicas, estando inconsciente.
A cena retirada da tragédia Hamlet faz-me pensar em todas as pessoas que têm a demência de Alzheimer e que por isso, morrem mesmo sem ter consciência do sofrimento; a pessoa com Alzheimer esquece-se da sua própria dor e não tem noção do seu declínio até à hora final.
Quem sofre pela partida, são aqueles que ficam a usufruir da vida.

No livro Lunário, de Al Berto, é possível ler
… Um morto é a coisa mais melancólica que existe… só vive e ocupa espaço na memória dos que por aí ficaram, desse lado. Mas os vivos não enchem a memória de um morto. Um morto tem como destino apagar-se para sempre, apesar de muito o terem amado, apaga-se… esteja ele onde estiver…
Na morte de Ophelia há um elemento essencial. É impossível ignorar a envolvência do rio em toda a história. O rio que nasce no alto das montanhas e que tem o seu destino junto à foz, onde se mistura com as águas do mar.
As lágrimas derramadas por todos aqueles que ficam nas margens são dissolvidas pelo rio. Mais tarde ou mais cedo, são esquecidas pelo tempo.

Virginia Woolf, escritora britânica, morreu também no rio, mas a sua história é completamente distinta da história da jovem Ophelia. Virginia planeou bem a sua morte e estava consciente do que estava a fazer; foi um acto premeditado e prova disso é a carta que a escritora deixou para o marido e na qual está escrita a seguinte mensagem:

Tuesday.

Dearest,

I feel certain that I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.

I don't think two people could have been happier than we have been.

V.

Virginia atirou-se ao rio com pedras nos bolsos, porque já não se sentia bem ao lidar com a sua perturbação e com o facto da mesma ter implicações na vida de todos aqueles que rodeavam a escritora.
Considero interessante o facto de tanto Ophelia como Virginia Woolf terem uma psicopatologia, no entanto, as suas mortes serem tão distintas. Ophelia morre inconsciente, coberta de flores e fruto de um acidente. Já Virginia Woolf, apesar de não estar bem psicologicamente, estava ciente do que estava a fazer, colocou pedras nos bolsos e cometeu o suicídio. O rio, em ambos os casos, é um elemento fulcral. O rio que tem o início na nascente e o fim na foz; o rio que desagua no mar, independentemente dos obstáculos que possam haver; o rio...