A doença corresponde a uma especificidade; algo que está perturbado relativamente à norma. Como definir uma norma dentro de uma população tão diversificada? Se todos os seres humanos são diferentes e a doença corresponde a uma especificidade, cada indivíduo constitui uma doença.
Cada ser humano, só não é uma doença, uma vez que alguém com um pendor para a redução, lembrou-se de rotular grupos de pessoas com características mais ou menos semelhantes, tendo em conta um domínio específico. Os outros que ninguém se lembrou de inserir em alguma categoria, foram designados por “normais”.
Numa hipotética lista, em que cada humano corresponde a uma doença, o n.º100329931029, seria de um dos nossos antepassados e reuniria características que fariam desse individuo, um corpo excepcional, de entre uma série infindável de números. Uma lista de números actualizada a cada milésimo de segundo, para atribuir um número aos novos seres que se formam e para suprimir da lista um número de um corpo que ao acordar não abriu mais os olhos e deixou-se dormir num sono profundo.
Cada ser que nasce, é uma nova doença. Cada ser que parte constitui uma doença erradicada. Há doenças que pelo seu engenho mereciam um nome, em detrimento de um número. Um desses exemplos é o corpo excepcional de Frida Kahlo.
Frida representa um corpo com dor que é aliviado, numa fase inicial, na fusão das cores do pincel com o colete de gesso e mais tarde no diálogo das cores e formas com as telas. Uma pequena dor que vai sendo tranquilizada, seja nos seus relacionamentos com o seu marido Diogo Riviera ou com as mulheres que apareceram na vida de Frida. Mesmo num amor doentio mantido com o seu esposo, foi possível para a pintora encontrar um alívio. Riviera, na história de Frida, para além de alívio, também aparece como a causa de pequenas dores. Doentio não é procurar o alívio num amor assim; patológico é não tentar ver as dores do corpo socorridas, um corpo que é indissociável da mente.
A pintora mexicana aparece como um exemplo de superação das suas limitações físicas. O acidente de que Frida foi vítima num autocarro, não só veio acentuar as dificuldades que Frida já possuía, mas também revelar uma força interior desmedida.
Esta é a história de um corpo excepcional, não pelas limitações físicas, mas pela grandeza que esta mulher mostrou e que se tornou visível na sua obra – um interior muito rico e que não corresponde a uma visão surrealista, dado que segundo Frida os seus quadros retratavam a sua própria realidade. Uma história que supera qualquer discussão sobre o normal e o patológico.
Se alguém se desse ao trabalho de criar um inventário com a designação de todas as doenças, que na verdade, corresponderiam ao número dos homens que já pisaram a terra, desconfio que o primeiro critério para diagnosticar a doença correspondente a Frida Kahlo fosse Viva la vida!

