quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Os amantes beijam-se de madrugada e dizem, entredentes, as palavras mais lamechas. Tudo o que ouvem um do outro parece belo, e fazem-no como se estivessem a participar num sarau de poesia. Só que os poemas são feitos de rimas forçadas e com palavras colocadas ao acaso. Rimam "amor" com "pavor", esquecendo-se do "ardor" e insistem em colocar um "beijo" na mesma estrofe que um "queijo", sem pensar no verdadeiro sentido daquilo que pronunciam. Tudo fá-los sentirem-se felizes, sendo hipócritas ao ignorarem o facto de o prazer ser momentâneo. São racionais, no entanto não conseguem deixar de ser emocionais. Alumiados pela lua, sentam-se junto ao Tejo, não evitando que a chuva se misture com o suor. As gotas de suor dissolvem-se com a chuva, porque o medo não os deixou darem tudo o que havia para entregar. O Homem move-se pelo receio de ser rejeitado e aqueles dois seres não são diferentes. Não se entregam porque amanhã haverá outra noite e ninguém sabe se estarão juntos outra vez. Levantam-se e correm pelos jardins com as mãos entrelaçadas. Apertam-nas com a força de quem diz "Não me abandones". Por momentos, são livres e com um sorriso envergonhado, são denunciados pela luz do primeiro eléctrico que passa na rua. Caminham para casa e sentem a culpa de quem vê as primeiras pessoas a irem para o trabalho. Entram no prédio e vêm com patinhas de lã para não deixarem nenhum vestígio. Sobem degrau a degrau, silenciosamente, antes da manhã chegar e revelar os seus rostos.
A luz vem depois de se separarem, sem antes terem olhado a cor do dia e de terem lidado com o receio de não se voltarem a encontrar. A noite é cúmplice do crime.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Onde estão as palavras que minuto a minuto são lançadas virtualmente na internet?
São palavras sem corpo e que morrem com uma avaria na internet. Palavras sem corpo, apenas com alma e que nunca chegam a conhecer o papel. Tentar recuperar palavras virtuais é como procurar um homem que se afogou no alto-mar e pelo qual a família terá de fazer o luto sem o corpo – morreu, mas não restam vestígios que provem a sua existência, a não ser aqueles que estão presentes na memória dos entes queridos. Quanto às palavras, resta sempre uma leve ideia do conteúdo ao criador daquela sequência de palavras, separadas, ora por espaços, ora por vírgulas, hífens ou pontos. Algumas sequências com maior genialidade e outras mais básicas, e que dependem apenas da vontade do autor e da força que o mesmo imprime tecla a tecla, até formar uma palavra, frase e assim sucessivamente, até colocar o último ponto.
Esses escritores que abundam na internet, quando morrerem não deixarão espólio. Palavras que não conheceram o papel, seja através da caneta ou da tinta de uma impressora - essas têm poucas causas de morte. Que morte poderá ter essas palavras escritas no papel? Um ataque de fúria que as rasga em mil papelinhos. Uma fogueira que as deixa em cinza… ou então uma manhã de orvalho que deixa que as gotas caiam sobre o papel.