Os amantes beijam-se de madrugada e dizem, entredentes, as palavras mais lamechas. Tudo o que ouvem um do outro parece belo, e fazem-no como se estivessem a participar num sarau de poesia. Só que os poemas são feitos de rimas forçadas e com palavras colocadas ao acaso. Rimam "amor" com "pavor", esquecendo-se do "ardor" e insistem em colocar um "beijo" na mesma estrofe que um "queijo", sem pensar no verdadeiro sentido daquilo que pronunciam. Tudo fá-los sentirem-se felizes, sendo hipócritas ao ignorarem o facto de o prazer ser momentâneo. São racionais, no entanto não conseguem deixar de ser emocionais. Alumiados pela lua, sentam-se junto ao Tejo, não evitando que a chuva se misture com o suor. As gotas de suor dissolvem-se com a chuva, porque o medo não os deixou darem tudo o que havia para entregar. O Homem move-se pelo receio de ser rejeitado e aqueles dois seres não são diferentes. Não se entregam porque amanhã haverá outra noite e ninguém sabe se estarão juntos outra vez. Levantam-se e correm pelos jardins com as mãos entrelaçadas. Apertam-nas com a força de quem diz "Não me abandones". Por momentos, são livres e com um sorriso envergonhado, são denunciados pela luz do primeiro eléctrico que passa na rua. Caminham para casa e sentem a culpa de quem vê as primeiras pessoas a irem para o trabalho. Entram no prédio e vêm com patinhas de lã para não deixarem nenhum vestígio. Sobem degrau a degrau, silenciosamente, antes da manhã chegar e revelar os seus rostos.
A luz vem depois de se separarem, sem antes terem olhado a cor do dia e de terem lidado com o receio de não se voltarem a encontrar. A noite é cúmplice do crime.
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