quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Hoje pretendo falar-vos de uma palavra morta, ou o nome deste blog não fosse A morte do abc. Refiro-me à palavra emovere e quando digo que está morta, faço uma alusão ao latim que entrou em desuso e actualmente é uma língua de elites (e em vez de elites, poderia também dizer velhos e chatos que não têm mais nada para fazer).
A palavra emovere depois de inúmeras transformações, passou a ser conhecida na língua de Camões como emoção.
Facilmente associamos a palavra em latim ao movimento e por um processo intuitivo depreendemos que emovere é equivalente àquilo que nos faz mover.
Nos dias de hoje, as emoções e o movimento, em termos de significado encontram-se em pólos opostos. A primeira palavra é caracterizada como algo abstracto e espontâneo; já o movimento chegou aos nossos dias como um processo mecanizado, concreto e observável.
Aliás, se pensarmos em desporto de competição e nos constantes treinos de que o movimento é vítima (o movimento que deve ser aperfeiçoado para anular parte da intensidade que foi dada a um determinado gesto; ou então o gesto que deve ser reforçado), a relação entre emoção e o movimento deixa de fazer qualquer sentido e chega a ser ridícula.
Já se associarmos o movimento às expressões artísticas, nomeadamente à dança, concluímos que esse movimento tem de ser sentido e vir de dentro.
São inúmeras as causas que levaram a esta divergência de ambas as palavras. Eu aposto na industrialização, e na racionalização que foi imposta nas mais diversas áreas (para as quais o movimento é indispensável). Ser-se emocional e racional é quase incompatível (ou pelo menos alguém quis acreditar assim). Outro alguém, também fez questão de estabelecer uma relação intuitiva entre o rendimento no trabalho e a emoção, sendo que estes termos, de acordo com essa pessoa, seriam inversamente proporcionais - a revolução industrial aparece como um ponto de viragem em imensas áreas e fica sempre bem atribuir-lhe a causa de algo, por mais forçada que a associação possa parecer.
Numa perspectiva distinta, podemos pensar em expressões como "o amor à camisola", ou então lembrarmo-nos da euforia vivida no desporto e rapidamente vem-nos à memória imagens da forma como as pessoas vibram com o movimento dos jogadores em campo; como se afligem nos momentos antecedentes à marcação de uma grande penalidade e posteriormente, desatam a gritar goloooooooooooooooooooooooooo, quando o resultado é mais feliz e vai de encontro àquilo em que o ser humano crê e pelo qual se move.
Após todas estas considerações, quero deixar uma mensagem muito simples: movam-se imenso; movam-se pelas vossas ambições e por tudo aquilo em que acreditam - não só no desporto, mas em tudo na vida.
Movam-se, ou melhor, emocionem-se.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Era uma vez..." - É assim que começam todas as histórias de fadas e princesas. Esta não é mais uma história, ou pelo menos distingue-se do irreal e ilógico mundo que tem vindo a ser divulgado por meio de duendes e demais criaturas encantadas.
Recordo-me de ser mais novo e a minha avó contar, sem pensar muito no assunto e como quem diz "Ouve lá uma história para te calares", uma história também iniciada pela forma mais fácil que os escritores de literatura infantil inventaram para descrever uma série de acontecimentos de um mundo fantástico. Contudo, a história da minha avó, não era uma história comum e acho que fugia ao universo patético e previsível do "(...) e viveram felizes para sempre". ´
A história era contada em poucas linhas: "Era uma vez uma vaquinha chamada Vitória. A vaquinha morreu e acabou-se a história".
Não tirei como lição da história o carácter dramático inerente à mesma, em vez disso, preferi me concentrar na imprevisibilidade das situações e no fascínio pelos desfechos que fogem à norma. Em poucas palavras, ouvi uma história de beleza ímpar e aprendi que também posso encontrar alguma graciosidade na simplicidade das palavras e no não convencional.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vagueio nos corredores do supermercado mas não encontro aquele produto. Tal como a senhora do ferrero rocher, apetece-me algo mas não sei ao certo o que é. Procuro pelo Ambrósio, mas ele não sabe que me sugerir.
Passeio com o cesto vazio e continuo a olhar prateleira a prateleira sem saber qual é 'aquele' produto. Fiz uma lista em branco porque o frigorífico e a dispensa estão cheios. Apenas, sei que ainda me falta algo. Talvez não se venda, de qualquer maneira, continuo a percorrer prateleira a prateleira a tentar encontrar o incógnito produto.
- Desculpe, vende-se satisfação? - pergunto à senhora que está a arrumar os produtos.
Ao que ela responde que fica no 3.º corredor, à direita.
Lá está o produto, vem em saquetas de chá. Está mesmo na primeira prateleira, junto ao solo. Não, não vem numa caixa de veludo vermelha e não tem letras douradas. É de marca branca e ainda por cima vem numa embalagem maltratada.
Nesse corredor várias são as pessoas que procuram pelo produto, mas ninguém ainda deu por ele. Procuram-no nas últimas prateleiras e estão longe de imaginar que ele está ali, junto ao chão.
Não, não é preciso ser alto para alcançá-lo, basta apenas olhar para baixo, vê-lo e ter a humildade de curvar as costas para agarrá-lo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

À espera da Primavera (Haiku)

Em breve, é Primavera -
Pássaros sobrevoam céus
e flores desabrocham na terra.

domingo, 2 de janeiro de 2011

- Olá!
- Tudo.
- Tudo?
- Sim. Se esta fosse uma conversa normal, seria a resposta à tua próxima pergunta.
- Sou assim tão previsível?
- Não. Respondi para compensar aquelas vezes em que vou na rua e encontro alguém conhecido e ambos, por automatismo, perguntamos "Tudo bem?", mas cada um está mais interessado com o rumo que vai seguir do que com a resposta do outro e por isso continuamos em frente.
- Hein?!
- Foi a maneira que encontrei para saberes como eu estava, antes de te ires embora.
- Tudo bem? - Perguntou o homem e seguiu o seu caminho, sem esperar qualquer resposta.