Hoje pretendo falar-vos de uma palavra morta, ou o nome deste blog não fosse A morte do abc. Refiro-me à palavra emovere e quando digo que está morta, faço uma alusão ao latim que entrou em desuso e actualmente é uma língua de elites (e em vez de elites, poderia também dizer velhos e chatos que não têm mais nada para fazer).
A palavra emovere depois de inúmeras transformações, passou a ser conhecida na língua de Camões como emoção.
Facilmente associamos a palavra em latim ao movimento e por um processo intuitivo depreendemos que emovere é equivalente àquilo que nos faz mover.
Nos dias de hoje, as emoções e o movimento, em termos de significado encontram-se em pólos opostos. A primeira palavra é caracterizada como algo abstracto e espontâneo; já o movimento chegou aos nossos dias como um processo mecanizado, concreto e observável.
Aliás, se pensarmos em desporto de competição e nos constantes treinos de que o movimento é vítima (o movimento que deve ser aperfeiçoado para anular parte da intensidade que foi dada a um determinado gesto; ou então o gesto que deve ser reforçado), a relação entre emoção e o movimento deixa de fazer qualquer sentido e chega a ser ridícula.
Já se associarmos o movimento às expressões artísticas, nomeadamente à dança, concluímos que esse movimento tem de ser sentido e vir de dentro.
São inúmeras as causas que levaram a esta divergência de ambas as palavras. Eu aposto na industrialização, e na racionalização que foi imposta nas mais diversas áreas (para as quais o movimento é indispensável). Ser-se emocional e racional é quase incompatível (ou pelo menos alguém quis acreditar assim). Outro alguém, também fez questão de estabelecer uma relação intuitiva entre o rendimento no trabalho e a emoção, sendo que estes termos, de acordo com essa pessoa, seriam inversamente proporcionais - a revolução industrial aparece como um ponto de viragem em imensas áreas e fica sempre bem atribuir-lhe a causa de algo, por mais forçada que a associação possa parecer.
Numa perspectiva distinta, podemos pensar em expressões como "o amor à camisola", ou então lembrarmo-nos da euforia vivida no desporto e rapidamente vem-nos à memória imagens da forma como as pessoas vibram com o movimento dos jogadores em campo; como se afligem nos momentos antecedentes à marcação de uma grande penalidade e posteriormente, desatam a gritar goloooooooooooooooooooooooooo, quando o resultado é mais feliz e vai de encontro àquilo em que o ser humano crê e pelo qual se move.
Após todas estas considerações, quero deixar uma mensagem muito simples: movam-se imenso; movam-se pelas vossas ambições e por tudo aquilo em que acreditam - não só no desporto, mas em tudo na vida.
Movam-se, ou melhor, emocionem-se.