Sábado. 16:51. O céu está cinzento e há pombos em bando, na tão afamada calçada. Os pombos em bando e as pessoas solitárias. O Sábado pregou uma partida e travestiu-se de Domingo. Sinto o tédio do Domingo retratado no rosto de cada pessoa. Em frente consigo ver prédios com cartazes a anunciar a venda ou aluguer do espaço. Creio que alguns desses anúncios já estão ali há algum tempo. O anúncio a uma das habitações do prédio n.º 376 quase já não se vê. Outros prédios já foram vendidos à inconstância do tempo – foram entregues ao sol e à chuva. Noutros em que os donos tendo receio de que fossem ocupados por ratos, foram construídos muros de tijolo, no lugar das portas. Vejo ainda outro prédio abandonado com o símbolo da república. Abandonado como as pessoas solitárias. O número dessa porta tem três dígitos, porém um dos números foi corroído pelo tempo e apenas consigo identificar um 6 e um 2. Gerou-se um clima de desconfiança e as pessoas transformaram-se em pedra. Os cantos da boca de cada uma das pessoas estão virados para baixo e receio que essa adaptação biológica já nasça com as futuras gerações. Ou isso… ou então que venha a revolução. Já há cartazes por todo o lado a anunciar o descontentamento – “É tempo de dizer basta”, “Activar a cidadania”, “Precariado sem medo” etc – Anúncios que estão lado a lado com as campanhas das grandes marcas, ícones do capitalismo. Imagens hipersexualizadas e que parecem vender a felicidade. O problema é que não há dinheiro para comprar esses produtos.
Ouvem-se bumbos, mas o sangue tarda em aparecer.
"… Um morto é a coisa mais melancólica que existe… só vive e ocupa espaço na memória dos que por aí ficaram, desse lado. Mas os vivos não enchem a memória de um morto. Um morto tem como destino apagar-se para sempre, apesar de muito o terem amado, apaga-se… esteja ele onde estiver…" AL BERTO, in LUNÁRIO, (Assírio & Alvim, 2012)
sexta-feira, 27 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Saíste de casa sem levar o que te pertence. Deixaste o amor emaranhado no chão e não me apetece dobrá-lo e arrumar numa gaveta. Irá continuar ali a apanhar pó. Deixaste tudo e apenas a cama ficou mais vazia. Antes deitava-me nas nuvens, hoje deito-me num colchão de esponja dura. Leva todo o amor. Vem buscá-lo quando eu cá não estiver e alimenta o teu ego. Sacode-lhe o pó. Esse só me provoca alergias e mesmo que me deixe os olhos molhados, sei que nenhuma lágrima irá cair. Deixa o pó. Apenas isso.
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