O homem vestido de preto foi a um funeral. Confundia-se entre tantos outros indivíduos vestidos da mesma cor. Na verdade, era um dos poucos sítios em que ele passava despercebido. Ele não conhecia o defunto. Tão pouco estava ali para partilhar a dor dos entes queridos. Tirou os óculos escuros do rosto. Sentou-se numa pedra branca de mármore e pegou numa caneta e um caderno que tinha no bolso do casaco. Olhava para as pessoas e escrevia sobre elas. Abstraía-se das roupas e das cores, que não variavam muito - fatos e mais fatos pretos, uns mais curtos, outros mais compridos. Reparava em cada movimento do corpo, na distância que unia e separava todos os que estavam no recinto. A distância dos corpos não era a mesma. Ele, mesmo assim, tentava escrever uma equação que traduzisse a distância dos corpos naquele espaço. O homem descrevia os rostos - a tensão dos músculos faciais. A quem pertenciam os rostos mais contraídos? Em alguns indivíduos, ele observava o momento anterior à queda de uma lágrima. Escrevia pormenorizadamente tudo o que acontecia durante a passagem da lágrima pelo rosto. Eram apenas lágrimas, por vezes acompanhadas de uns gemidos. Estas surgiam tanto em rostos contraídos, como nos menos tensos. Alguns rostos não evidenciavam sinais de ter caído uma lágrima. Em quase todos via-se suor a escorrer pela cara, resultado do casamento daquela tarde de sol com as vestes pretas. Ainda havia lugar para uns sorrisos tímidos. As lágrimas eram esquecidas pelo rosto. O suor teimava em permanecer nos rostos. A cerimónia terminou. Não havia mais ninguém no cemitério para além do homem vestido de preto. Ele rasgou as folhas do caderno. Limpou o suor da testa com as folhas e deixou-as junto daquele que acabara de partir para o mundo subterrâneo.
"… Um morto é a coisa mais melancólica que existe… só vive e ocupa espaço na memória dos que por aí ficaram, desse lado. Mas os vivos não enchem a memória de um morto. Um morto tem como destino apagar-se para sempre, apesar de muito o terem amado, apaga-se… esteja ele onde estiver…" AL BERTO, in LUNÁRIO, (Assírio & Alvim, 2012)
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Ela disse que os poemas estavam suspensos na natureza. Fui até ao jardim e sentei-me. Para além do verde, o vazio. Algum vento, também. Os poemas estão na natureza, tal como os frutos nas árvores. Eu não tenho um pomar, nem sou agricultor. Onde estão os poemas imanentes? Muitos já foram colhidos até à data. Estou certo que muitos foram encontrados no mar. O peixe parece ser inesgotável. Continuo à procura do poema nesta mancha verde, ou então noutro lugar. Penso que mesmo num terreno árido existirão uns versos à espera de serem colhidos.
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