Amei-me através de ti. Tela branca de cinema. Um corpo fraco,
franzino, frio, feio. Amei-me. Nada
mais projectei que a mim e todas as coisas por mim apropriadas. Projectei em
ti a poesia de Sophia. As músicas e os filmes de Paris. [Ai, Paris! Quando te
conheci, vi que não eras nem música, nem filme. Cidade cinzenta, de velhice e
betão. Uma tela cinzenta para a qual alguns projectam amor. Paris, tomara não
ter sido necessário ouvir o fado numa das tuas janelas e projectar a nostalgia
para um corpo inabitado.] Amei o sexo. O sexo que a mim ofereci, nunca a ti. Amei
o Chico Buarque e o tinto. Os movimentos das danças que marcavam o
ritmo daquilo que eu acreditava ser amor. Era amor - Narcísico. Hoje és um corpo laxo desprovido de todos os
prazeres. Um corpo frágil e inabitado. Extorqui de ti a Marguerite Duras e hoje
apodero-me dela como se sempre tivesse sido minha. Hoje sou a pequena puta de
Saigon. Já não és fado, nem bossa-nova. Não és vinho. Nem desejo. Sinto a
ausência desse corpo fraco e feio. No silêncio e na ausência de
ti, não há mais tela para mim.