terça-feira, 29 de outubro de 2013

Amei-me através de ti. Tela branca de cinema. Um corpo fraco, franzino, frio, feio. Amei-me.  Nada mais projectei que a mim e todas as coisas por mim apropriadas. Projectei em ti a poesia de Sophia. As músicas e os filmes de Paris. [Ai, Paris! Quando te conheci, vi que não eras nem música, nem filme. Cidade cinzenta, de velhice e betão. Uma tela cinzenta para a qual alguns projectam amor. Paris, tomara não ter sido necessário ouvir o fado numa das tuas janelas e projectar a nostalgia para um corpo inabitado.] Amei o sexo. O sexo que a mim ofereci, nunca a ti. Amei o Chico Buarque e o tinto. Os movimentos das danças que marcavam o ritmo daquilo que eu acreditava ser amor. Era amor - Narcísico.  Hoje és um corpo laxo desprovido de todos os prazeres. Um corpo frágil e inabitado. Extorqui de ti a Marguerite Duras e hoje apodero-me dela como se sempre tivesse sido minha. Hoje sou a pequena puta de Saigon. Já não és fado, nem bossa-nova. Não és vinho. Nem desejo. Sinto a ausência desse corpo fraco e feio. No silêncio e na ausência de ti, não há mais tela para mim.

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