quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Cidade das Sete Colinas

Para mim já não é a Cidade das Sete Colinas. Quem o diz mente tanto como quando eu me refiro a esta cidade como aquela que eu escolhi para estudar. Na verdade, foi o que menos fiz. A ataraxia é para mim um ideal, mas não sou de ideais. Preferi arriscar. Subir montanhas e descer mesmo contra a minha vontade, empurrado pelos ventos e pelas lamas que me perseguiam. Quantas colinas subi e desci consecutivamente? Certamente foram mais de mil. Mil momentos fugazes e intensos. Alguns já recalcados, outros ainda bem presentes.
Nem me interessam as memórias. Olho para as pessoas e lugares e sei o que sinto, sem saber exactamente tudo aquilo que se passou. Nunca fui muito bom a descrever e não tenho por hábito ser minucioso. Escapam-me pormenores. Não sou de racionalizar. Sinto. Apenas isso.
O primeiro dia por Lisboa? Sei que fui feliz e isso basta-me.
Quando cheguei não vi a luz de Lisboa, a afamada luz. O mais próximo que vi da luz foi mesmo o estádio do Benfica e nem esse me impressionou. Vi prédios velhos e quase em ruínas de um lado e de outro. Mal via o rio. Encontrei pouca beleza. Cheirei esgotos. Sim, já cheirei muitos esgotos por Lisboa. Ergui a cabeça e decidi cheirar outros aromas. Quando ergui a cabeça, não senti esgotos. Pisei muito cocó. Não, não é a cidade perfeita. E logo depois de pisar a merda das ruas pensava: "Um dia vou ter sorte".
O “Cheira bem, cheira a Lisboa” apregoado pela canção é um mito. Sim, e esse mito pode equiparar-se aos grandes mitos urbanos em que se ouve falar de pessoas que acordam numa banheira de gelo sem rins, ou daquelas que foram puxadas por um braço numa qualquer rua do Bairro e ouviram “Violação ou boca de palhaço?”.
Aqui descobri outros encantos que não são contados pelo fado. Descobri as pessoas. Conheci o melhor e o pior do ser humano. Não olho para o pior com carinho, mas não tenho rancor. Em Lisboa cresci e se quando cá entrei ainda tinha restos de placenta e um cordão umbilical enrolado ao pescoço, sei que saio feito um Homem.
Como todos os Homens, não sei muito. Aprendi a ter noção do quanto não sei, ou melhor do pouco que sei. Saio de Lisboa com uma sede de aprender mais, de conhecer outros lugares e de ser tão feliz como fui nesta cidade. É por isso que me vou.
Sim, fui feliz. Descobri a diversidade existente nas pessoas e a sua riqueza. Por mais que isto possa parecer cliché, a verdade é que todos os que por mim passaram contribuíram para o meu crescimento pessoal. Num mundo de pessoas tão diferentes, eu absorvi um pouco de todas e adaptei esse fragmento roubado de alguém à minha própria realidade.
Comparo esta passagem pela cidade aos musicais e não saí no fim. Agora resta-me continuar a sonhar e a imaginar como seria o resto. As cortinas nunca se irão fechar e o ecoar de palmas nunca se fará ouvir. Sei que ainda há mais uma colina a percorrer, ou mais duas ou três… são instantes fugazes, mas intensos e deles recordo apenas o que senti.
Este musical tem em todas as canções um nome em comum: Lisboa.
Hoje parto de Lisboa, mas não abandono o sonho. Continuo a sentir a música, e o que oiço são gaivotas a grasnarem, as buzinadelas dos carros e as portas do metro a se fecharem. Oiço: “Próxima estação...”.
É isso, chegou a hora!
Saio discretamente pela porta das traseiras e não olho p’ra trás com o receio de ver o fim. Um dia volto. Não para ver o final mas para assistir à segunda parte. Quem sabe se não serei protagonista.
Não, nesse dia não quero que me digam break a leg, ou em bom português, boa merda. Não sou de tradições. O fado para mim já não é o mesmo por isso dou-me ao luxo de alterar a letra da canção, e sabendo de antemão, que esta não é a última música: “Lisboa tem mais encanto na hora da despedida!”

1 comentário:

  1. Richard :) Está tão bonito o teu texto... é ''tão tu''!

    Obrigada por todos os momentos, foi/é um prazer conhecer-te.

    Lisboa espera por ti!

    Beijinho da tua colega de estágio, e amiga,
    Tânia McCormick

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