domingo, 28 de abril de 2013



Resolvo solitariamente o jogo Marienband.
Quatro linhas:

Um fósforo. 
Três fósforos. 
Cinco fósforos. 
Sete fósforos. 

À vez retiro, de uma só linha, o número de fósforos que pretendo. O último jogador a retirar o último fósforo perde. Mão direita Vs. Mão esquerda. Consequência do jogo: amputação da mão derrotada. Converto o número de fósforos em combinações binárias. A soma das combinações binárias é par – uma combinação segura para uma das mãos. Combinação segura para a mão que for a segunda a jogar. Duelo: Hemisfério Esquerdo Vs. Hemisfério Direito. Impossível esconder da mão esquerda que o Hemisfério Esquerdo é responsável pelo raciocínio lógico e que controla a parte direita do corpo. Mão direita ou esquerda? Destro. Sou destro. A mão direita irá responsabilizar-se por um final sinistro, quando é ela a eleita, sempre? Abdico da lógica. Não, não permito que este desfecho seja fruto de uma luta desigual de mãos. O objectivo deixou de ser “Não ser o último a retirar o fósforo”. Retiro um fósforo com a mão direita. Outro fósforo com a mão esquerda. Objectivo: Preservar a mão o máximo de tempo possível. Retiro outro fósforo. Outra vez a mão esquerda a retirar. Mão direita. Mão esquerda. Mão direita. Mão esquerda. Mão direita. Mão esquerda. E assim é, fósforo a fósforo - ... Mão direita. Mão esquerda. Mão direita. Continuo a retirar fósforo a fósforo. Mão sinistra. Mão direita. Mão morta. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013


Escrever poesia para denunciar os erros do mundo é como ver através dos gladíolos, nascidos na Primavera, a imperfeição da terra. Tão grande contraste. O belo deambula pelas ruas, até no rosto daqueles a quem a fome comeu a carne e desgastou os ossos. Cresçam campos de papoilas, gladíolos e cravos. Que as gentes cegas pela fealdade sintam o cheiro das flores, espirrem com o pólen e tenham, diante dos olhos cegos, uma miragem de escarlate. A natureza que se encarregue de redesenhar os círculos perfeitos da utopia. Que surjam de novo os cravos nas espingardas, e a rouquidão no canto dos que acreditam. Que o Encoberto surja numa soalheira manhã de Abril para dizer que não é mais rei. Que se reguem as flores, e que o perfume do ar não seja mais o de Átropos a cortar o fio na hora do combate.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

A carne está crua
despojada no cubo
que antes era nada.

Aves de rapina devoram-na
deixando restos de branco
nas paredes, que se tornam escarlate.

Saciadas com a carne
pousam noutro corpo.

O cubo - nada, como antes,
com paredes escarlate.